Desmame Natural Tardio

Costumo dizer que virei uma ativista da amamentação, não pela militância, mas pela atitude em si. O desmame natural tardio é um processo de comum acordo entre mãe e filho, com apoio e suporte da família, algo com o qual sempre sonhei.

Quando decidi ser mãe, desejei, como na maioria das situações na minha vida além da maternidade, agir de forma natural, desde o parto, a amamentação, e as outras decisões maternas de uma forma geral. Apesar disso, li muita coisa, busquei informações, tentei estabelecer uma linha de ações a seguir, não para impor comportamento, mas acima de tudo, para tentar acertar – o que todas as mães almejam.

Sofri em diversos momentos o sofrimento da mãe de primeira viagem, aquele sofrimento de não entender como seu filho não se “encaixava” em padrões sugeridos por tantos manuais de maternidade, a disposição em larga escala, especialmente quanto ao sono e a introdução alimentar. Mas uma coisa que jamais duvidei foi no poder a amamentação.

Desmame Natural Tardio

O primeiro dia de vida do Arthur foi muito difícil. Eu e ele tivemos dificuldade em nos entender quanto a pegada do bico e toda a dinâmica da amamentação. Eu abalada com a enxurrada hormonal, aquela melancolia do Baby Blue batendo à porta, e, apesar do meu preparo teórico, a prática passou por dificuldades.

Ufa!! Conseguimos nos acertar mesmo antes de sair da maternidade. Então veio o volume de leite, a tradicional mastite e várias dificuldades que cada mãe passa com seu próprio filho.

Relatei minhas experiências iniciais aqui.

Fui vivendo o “amamentar” por partes, como se tivesse uma meta a cumprir. Primeira meta desejada era os 6 meses de amamentação exclusiva, recomendada pela OMS.

Viria a introdução alimentar e o retorno ao trabalho. Como trabalho meio período, a pediatra orientou que eu permanecesse  com o peito, sem a necessidade de fórmula, uma vez que ele já teria acesso a outros alimentos. Minha meta de amamentação passou a ser 1 ano.

Desmame Natural Tardio

Foi duro em Arthur aceitar outros alimentos, me aguardava chegar do trabalho para mamar. Quase fraquejei, cheguei cogitar suspender a amamentação, pensando que isso estaria atrapalhando sua introdução alimentar. Mas não era esse meu desejo.

Mais uma vez o suporte do Elliot foi fundamental. Me lembrou que o grande problema alimentar mundial é a obesidade e não a anorexia ou a desnutrição, e que logo Arthur estaria comendo… no tempo dele. Como é bom alguém com serenidade para nos colocar de volta ao eixo, pensando fora da caixa. Relaxei, me senti segura.

Seguimos então nossa meta que agora seria até 2 anos. Em outubro de 2014, Arthur tinha 1,10 ano, viajamos para Punta Cana e retornamos todos com gastroenterite. O leite não lhe caia bem. Achei que ali seria o fim. Arthur que sempre dormia no peito (adotamos cama compartilhada para facilitar minhas noites) estava aceitando somente água e abraço.

Assim que melhorou da gastroenterite, claro que continuou a amamentar, para minha alegria!

Amamentar bebê é uma delícia, agora, amamentar criança, é ainda mais! É um carinho, olho no olho, todo um cuidado e respeito. Era o momento em que meu menino voltava a ser bebê. Acho que jamais vou esquecer esse olhar.

Desmame Natural Tardio

Permanecemos após o 2° ano, vivendo ali, mês a mês ele me dar algum sinal que o desmame estava por vir. Apesar de olhares de recriminação, sim, porque são muitos os olhares de estranhamento ao ver um menino de quase 1m de altura, se encaixando no colo e pedindo peito, eu não me sentia pronta para forçar o desmame, nem tinha motivo para isso, até porque Arthur jamais me colocou em situação constrangedora. Além disso, não entendia, não concordava em trocar algo natural, limpo, prático, por algo industrializado (peito x fórmula – sem julgamentos, tá?)

Em maio, Arthur com 3 anos e 4 meses, eu sentia uma amamentação “seca”. Em determinado momento, passou a me incomodar após alguns minutos. Já era o leite diminuindo.

Arthur mamava por segurança, sono, afeto, atenção. Nem tanto pelos nutrientes ou pelo leite propriamente dito.

Dia 20 de julho, estávamos em férias, ele com 3 anos e 6 meses, me revelou que já mal saia leite, confirmando minha suspeita.

Desmame Natural Tardio

Sugeri então que ele já estava grande e que não precisaria mais mamar. Durante aquele dia ele nem pediu. Concordou que já era grande e não iria mais pedir. Claro que a noite pediu, chorou, não aceitava nosso acordo. Mas dormiu mesmo assim, abraçado comigo, resmungando.

Por 3 dias pediu, chegava a chorar e se zangar, mas logo se conformava. E eu firme em nossa decisão, dava colo, carinho, atenção. Cheguei a passar um dia inteiro com ele, assistindo filme e dando colo.

A criança muitas vezes fica com medo de perder a mãe quando se rompe o elo do peito. É fundamental dar esse conforto, pois o que se encerra é o ciclo da amamentação, mas o carinho, o cuidado e o afeto são demonstrados de outras maneiras.

Por outros 3 dias, estávamos na vovó em Americana, Arthur apresentou febre. Típico de abstinência. Engraçado que era exatamente nos horários em que mamava.

Insistiu pedindo, fraquejando, por cerca de 1 semana, 10 dias ao total, até que passou a não pedir mais. Pede para ver, cheirar, pegar. As vezes dorme segurando o peito.

Foi tão bom para nós, porque semanas depois fiz uma cirurgia de varizes e não esperava ter que passar a noite no hospital (em outro post falo sobre isso). Fiquei tranquila sabendo que ele não estaria esperando o peito.

Passou a dormir melhor, não acordava a noite para “chupeitar”, nem utilizava o peito como elemento de conforto para dormir, preferindo dormir abraçado ou de conchinha…

O desmame tardio deve ser entendido como um processo, afinal a criança já tem conhecimento do mundo a seu redor, já sabe arte da política, negocia com todas as suas armas, inclusive o choro e até mesmo a “birra”. Não é fácil para a mãe aguentar o estresse do processo, a vontade de ceder é imensa… mas vale insistir na decisão com firmeza e com o maior amor do mundo, justamente para criança entender que não perdeu nada, simplesmente está crescendo, passando de fase.

Desmame Natural Tardio

Neste momento, a presença do pai pode ajudar muito. Criar uma rotina diferenciada no horário das mamadas, uma atividade divertida, leitura, massinha, desenhar no papel, são dicas para desviar a atenção da criança.

Por sorte Arthur não substituiu o peito por nada, nenhum objeto de transição e nenhum alimento, ou bebida, outro fator importante a observar. Na ansiedade de consolar a criança, não podemos cair no erro de enchê-la com alimentos, isso pode levar a um distúrbio de ansiedade e compulsão alimentar, muitas vezes não percebida na infância, mas desenvolvida ao longo da vida adulta.

Se a criança já bebe outra fonte de cálcio, leite ou fórmula, mantenha a quantidade. Converse com o pediatra, mas evite substituir por bebidas cheias de açúcar. Ofereça água ou chá, de preferência adoçado com mel (Mel de boa origem, limitado a 1 colher de chá).

Meu objetivo com esse post não é fazer parte dos inúmeros manuais maternos que chegaram a me deixar frustrada quando não funcionava por aqui, e sim deixar registrado e também compartilhar minha experiência do desmame tardio, pois tantas mães passam pela mesma situação, e quando estamos no olho do furacão, pensamos que jamais encontraremos uma solução, mas ela acontece.

Desmame Natural Tardio

Às vezes chega de mansinho e quando a gente vê, já passou. Aqui, como foi uma “iniciativa” dele e não foi nada planejado, não tivemos a oportunidade da despedida, mas guardo com carinho e emoção esse momento tão único, especial e íntimo, de total entrega mútua, amor e nutrição.

Publicado por Estela Maria em 12 de agosto de 2016 às 19:51